Lemos | Sandman – Prelúdios e Noturnos da Panini

Confira nossa análise completa da edição especial de 30 anos

Neil Gaiman é um dos melhores contadores da história de todos os tempos. Não, não é exagero. Para quem não conhece o autor britânico, não sabe o que está perdendo. Só nos últimos anos podemos citar exemplos de duas de suas grandes criações que chegaram à TV: Deuses Americanos (American Gods) e mais recentemente Belas Maldições (Good Omens), ambas produções originais da Amazon Prime Video. Ambas obras foram baseadas em romances best sellers em diversas listas da autoria de Neil. Nos quadrinhos, assunto da coluna de hoje, Sandman é sua maior criação. Decidi pela análise da obra, pois além do lançamento recente da edição especial de 30 anos aqui no Brasil pela Panini, vivemos um momento de luto pelo selo a qual a obra pertencia: o selo Vertigo da DC Comics. A DC, assim como a Marvel vem cometendo muitos erros editoriais nos últimos anos. Dentre eles incorporar personagens incríveis como o próprio Sandman, entre outros como os personagens de Watchmen em sua cronologia atual. Quem conhece as obras sabe que são consideradas clássicos absolutos das hqs, justamente por fugirem do lugar comum. E assim, infelizmente na última semana foi extinto o selo Vertigo, criado inicialmente para adultos e que gerou obras incríveis. Mas vamos começar a falar de Sandman. A história de Sandman traz Sonho, um dentre os Sete Perpétuos, representações antropomórficas de aspectos comuns a todos seres vivos. De acordo com a história, eles estão aqui desde antes do início do Universo e estarão depois que o último deus morrer. São eles Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e DelírioA obra já demonstra o carinho e a criatividade do autor pelos nomes, que em inglês são todos começadas pela letra D, respectivamente: Destiny, Death, Dream, Destruction, Desire, Despair e Delirium. Apesar dos capítulos terem como foco principal Sonho, todos irmãos tem importância, bem como a miríade gigante de coadjuvantes na história. Além disso tudo está ligado na história. Neil Gaiman demonstra sua competência como autor ao estabelecer um universo onde fica evidente que ela já tinha planejado como começar, desenvolver e terminar sua história. Assim, ao ler Sandman, há histórias que aparentemente são soltas, mas que vão se amarrando durante o decorrer da série e ao final não ficam pontas soltas.

Nesse primeiro encadernado, Prelúdios & Noturnos, um ocultista que busca aprisionar a morte para barganhar a vida eterna acaba capturando seu irmão mais novo, Sonho, em seu lugar. Após um cárcere de 70 anos, Sonho, também conhecido como Morpheus, parte numa jornada para recuperar seus objetos de poder. Em sua jornada, ele encontrará, Lúcifer (sim, o mesmo personagem da série da Netflix), John Constantine e um homem insano e poderoso conhecido como John Dee. Além do roteiro maravilhoso de Gaiman, juntam-se ele artistas incríveis. A começar pelas capas. Dave McKean, outro britânico e parceiro de Neil em várias obras, como Mr. Punch, Sinal e Ruído, Orquídea Negra, Coraline, entre outras. O artista tem um trabalho incrível que mistura fotos com pintura em artes que por vezes parece abstrata, mas por outras que tem tanto a dizer. Aliás, vale citar que as capas das edições comemorativas são todas inéditas e feitas especialmente para estas edições. Quanto a arte das edições, são vários artistas e nessa primeira edição participam Sam Kieth, Mike Dringenberg e Malcom Jones III. É incrível que cada um tenha a sua representação de Sandman, agregando um outro fator interessante. Sendo Sonho um aspecto dos seres vivos, é esperado que ele não tenha sempre o mesmo visual, pois os sonhos não tem limites. E tocando neste ponto, as metáforas utilizadas na obra são sensacionais, além de referências mitológicas e literárias. Um exemplo é a areia, um dos objetos de poder de Morpheus. Essa referência remete ao personagem conhecido por aqui como João Pestana, que joga areia nos olhos para as pessoas adormecerem. Dentre as histórias do primeiro encadernado, o destaque fica para “24 horas”, uma das histórias mais aterradoras que já li e ao mesmo tempo que traz um aspecto realista da mente humana e do que o ser humano é capaz de fazer em situações extremas. “O Som das suas asas” é uma das minhas favoritas da série toda, com a participação da Morte, a irmã mais velha de Sonho que vem tirar o personagem de um começo de depressão, após reconquistar o seu poder. Durante a conversa dos dois irmãos, bastante humanizada apesar de todos seu poder, a Morte também cumpre seu papel e leva um garoto para sua jornada final. Quanto a qualidade da nova edição da Panini, houve um problema muito sério editorial na primeira impressão em que muitos leitores acabaram se manifestando na internet. Até que o próprio Neil lamentou o ocorrido como você confere no tweet abaixo de sua conta oficial:

A Panini fez um recall das edições, fez a troca de quem já havia adquirido e colocou uma nova impressão à venda, agora já corrigida. Ainda há alguns probleminhas aqui e ali, mas a edição é muito agradável para você sentar e ler, ao contrário das edições absolute, também lançadas pela editora, com capas duras, pesadas, ruins de se manusear e com preço elevado. Também já está a venda o segundo volume da coleção “Casa das Bonecas” que também terá uma resenha logo mais. Faço questão de divulgar estas histórias, esperando que o nosso leitor se encante como eu me encantei há muitos anos atrás, com essa obra única, que faz a gente contar os dias pelo próximo capítulo. Espero que a Panini continue tomando cuidado com o trabalho editorial, pois esta é uma obra que merece cada cuidado. Terminando por aqui, mas fiquem ligados para mais novidades sobre quadrinhos a qualquer momento aqui mesmo no GamePlay RJ.

Químico, pai e professor no mundo real, Felipe, vulgo Nerd sempre foi apaixonado por quadrinhos,cinema e TV. Também adora escrever e discutir sobre os temas nas horas vagas, o que o trouxe a GameplayRJ, sua morada na internet.

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