Assistimos | O Poço da Netflix

Confira nossa análise completa do longa da Netflix

O Poço (El Hoyo), produção espanhola da Netflix, estreou este mês e tem causado muita discussão na internet. Essa análise tem duas sessões. Começamos sem spoilers, com comentários gerais, seguida da discussão da interpretação com spoilers, eu aviso. Mas vamos começar pela sinopse:

“Em uma prisão de vários andares em um futuro distópico, uma plataforma desce levando comida para os detentos de cima. Mas o mecanismo deixa os ocupantes das celas de baixo famintos, desesperados e cada vez mais radicais.”

O filme começa com o protagonista Goreng (Ivan Massagué) acordando em um pequeno quarto com toda estética de prisão, bem como as vestimentas dele e de seu companheiro de cela, Trimagasi (Zorion Eguileor). Trimagasi, aparentemente um bom velhinho, vai explicando com má vontade, as regras daquele lugar. Eles estão ali para comer, e eles só comerão o que as pessoas de cima não quiserem em uma plataforma que vai descendo. E assim por diante, e é onde nós vemos que se trata de uma prisão vertical com muitos níveis e eles estão no nível 48, que Trimagasi diz que é um bom nível. Aos poucos o espectador acompanha Trimagasi e descobrimos mais sobre as regras do lugar. Eles mudam de nível a cada mês e eles são totalmente aleatórios. Ou seja, mesmo que cheguem aos níveis superiores, amanhã podem estar embaixo. Além disso, cada um é livre para fazer o que bem entender ali. Mas além da crítica social, o filme permite múltiplas interpretações, o que levou às discussões na internet. Após assistir dê uma olhada não só na nossa análise, mas em várias e vocês verão que de acordo com as crenças e personalidades de cada um temos interpretações bem diferentes. Mais detalhes sobre isso ficam para nossa sessão de spoilers. O diretor estreante Galder Gaztelu-Urrutia conduz habilmente a câmera nos ângulos certos, que aliada a fotografia blasé, em ambientes de linhas retas e claustrofóbicos nos leva à uma imersão completa na experiência vivida pelos personagens. O elenco, apesar de não trazer nenhum grande nome, está excelente, e é completamente essencial à uma história que não tem locações, ou cenários que distraiam a atenção do espectador. Os roteiristas David Desola e Pedro Rivero trabalham muito bem a personalidade e os diálogos de cada um, que também são essenciais à desvendar as múltiplas interpretações do filme. Veja que cada nível Um outro ponto importante é o gore, que não deve agradar aos mais fracos, mas que não é gratuito e sim por mostrar uma situação desagradável que tem que ser confrontada. E agora entramos em nossa sessão com spoilers em que discuto mais detalhes da trama. Então se você não quer saber nada, incluindo o final, volte somente depois de conferir, mas já fica a dica que o filme é muito bom, facilmente um dos melhores do ano.

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O filme traz a crítica social desde o início quando vemos a frase: “Só existem três tipos de pessoa: as de cima, as de baixo e as que caem”. Utilizar a comida para mostrar a desigualdade social que nos rodeia torna tudo mais didático já que a fome é um problema que nos persegue mesmo antes dos tempos tensos em que vivemos com o Covid-19. Procurem a “alegoria das colheres longas” para entender, que basicamente diz que temos que nos auxiliar mutuamente para vencer esse problema. O filme vai na contramão disso, onde as pessoas são muito individualistas e se importam apenas com o momento, onde se estão nos níveis mais altos irão se fartar de comer para compensar a fome que sentirão quando forem para níveis inferiores. Eles chegam até mesmo a urinar ou defecar nas pessoas dos níveis inferiores. Em um dado momento, a personagem Imoguiri (Antonia San Juan), tenta mudar o sistema tentando convencer que se cada comesse o que lhe coubesse, a comida daria para todos. Apesar de falhar, ela consegue despertar em Goreng a soliedariedade, que só aumenta depois que ele conhece Baharat (Emilio Buale) que tem uma fé muito grande dentro de si. Isso leva os dois a subirem na plataforma e tentar derrubar o sistema a todo custo, ameaçando os níveis superiores de não comerem nada utilizando a violência. Neste ponto temos uma interpretação muito importante em que se imediatamente vemos uma crítica ao capitalismo, quando eles tentam repartir a comida, o que seria uma prática socialista, tem de fazer isso utilizando a violência. Ou seja, na visão do diretor não há um sistema social perfeito. Isso foi confirmado em entrevista ao Metro. Ainda de acordo com suas entrevistas ele deixou o filme propositalmente aberto à diferentes interpretações de diferentes indivíduos e como eu disse em outra sessão isso fica evidente nos comentários na internet. Mas é óbvio (palavra que ele faz questão de jogar em nossa cara) que ele quis trazer uma crítica social. Em suas palavras, quando perguntado pelo Collider sobre a mensagem (literal no final e de modo geral) do filme ser entregue: 

“Isso é algo que você deve perguntar à sociedade. Depende de todos nós. Depende em se vamos nos manter a espécie mais miserável que pôs o pé nesse planeta ou se nós queremos entende-la”

Fechando a questão da crítica social temos o caramujo, um bichinho que muitas pessoas chegam até mesmo a ter nojo, mas que torna-se um prato bastante requintado, o Escargot. Isso mostra como viramos o rosto para as questões sociais e não olhamos para baixo para pessoas como nós. A transição caramujo-escargot também representa a transformação/evolução de Goreng como ser ao longo da trama. 

Outro final menos óbvio e que é evidente dos diferentes comentários é uma interpretação religiosa, metafísica. Ainda que algumas pessoas não acreditem, as referências à religião católica são muito óbvias. Goreng é chamado de Messias, um messias que tem uma mensagem a entregar. Também há uma citação da bíblia quando os personagens alcançam os níveis inferiores, onde não sobra comida da plataforma e eles tem que recorrer ao canibalismo para sobreviver. Essa é dita na lata, sem rodeios, mas para quem não segue essa orientação ou não conheça, segue:

João 6:53-57: “Jesus, pois, lhes disse: Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim.”

Outra referência é o número de andares, 333, que multiplicado pelas duas pessoas que habitam cada nível resulta em 666, número da besta, uma referência ao Inferno que esses personagens estariam. No caso a possibilidade de ascender ao Paraíso, onde estaria a Admnistração (Deus ou um poder superior), seria possível após suportar esse Inferno ou mesmo um Purgatório, dependendo do nível. Também há referências aos sete pecados capitais. Na descida final de Goreng vemos um cara agarrado ao dinheiro (avareza), outros abraçados e aparentemente se acariciando em uma banheira (luxúria), os companheiros que se mataram (ira). Já durante o filme, vemos as pessoas comendo excessivamente (gula), as pessoas arrogantes, vaidosas quando chegam em níveis superiores, chegando a urinar ou defecar nos níveis interiores (soberba) a inveja quando Trimagasi deseja o livro de Goreng pois não trouxe sua TV, e a preguiça quando Trimagasi diz que falar demais cansa e quer só ficar deitado após comer. Também a referências ao Dez Mandamentos, sendo a mais óbvia ao quinto: “Não matarás”. As refeições, que são as últimas de alguns prisioneiros, poderiam ser encaradas como A Última Ceia. Finalmente, a menina que Goreng e Baharat encontram no final, que seria a filha perdida de Miharu (Alexandra Masangkay), seria uma mensagem de esperança, como o messias, Jesus deixou uma mensagem e após ascende aos céus, e a menina chegaria ao nível mais superior.

O último final, uma visão um pouco mais pessimista ou mais realista seria que na verdade Goreng morreu, ainda que ele acredite ter concretizado sua missão de levar a sua mensagem. O diretor entregou uma importante evidência deste final ser o verdadeiro na mesma entrevista ao Metro:

“Para mim, o nível mais baixo não existe. Goreng está morto antes que ele chegue e isso e aquilo é somente sua interpretação que ele fez o que tinha que fazer”

Após fica debilitado pela fome, ferimentos da tentativa de Trimagasi de come-lo e pela luta com dois prisioneiros nos níveis inferiores, as alucinações de Goreng com seus ex-companheiros mortos, recorrentes durante boa parte do filme, teriam ficado mais fortes, e a menina seria apenas mais uma delas. E no final seu reencontro com Trimagasi em um possível outro plano seria parte de sua morte. A possibilidade deste final também é reforçada pelo livro que Goreng levou ao Poço, Dom Quixote, personagem do escritor Miguel de Cervantes, espanhol, assim como o filme, que perde a razão e começa a alucinar. O visual do ator também remete a figura de Quixote estabelecida por Cervantes. Além disso, seu primeiro e último companheiro Trimagasi, tem um visual parecido ao fiel Sancho Pança, parceiro nas supostas aventuras do fidalgo. Indo mais longe ainda nesse final, a tal panacota, que seria a princípio a mensagem que Goreng e Baharat tinham que defender para que voltasse ao nível zero e quebrasse as regras do sistema, não teria funcionado. Isso fica evidente por um dos flashes (que poderia ser um flashforward, já que o filme também foca muito no tempo ali passado) que temos do chef e seus assistentes que preparam a comida. Neste flash vemos o chef implicando com os assistentes com um cabelo encontrado na panacota, o que indicaria que na verdade a tal mensagem foi ignorada pela Administração superior e tudo continuaria na mesma maneira, com esse duro sistema. Independente da interpretação, de gosto pessoal, o fato é que O Poço é sem dúvida um dos, senão o melhor filme do ano. Então aproveite a quarentena e confira na Netflix. Fiquem ligados para mais novidades sobre filmes, a qualquer momento, aqui no GamePlay RJ.

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